1 O estranho com nome de "sugar daddy"

Mais um dia cansativo de trabalho. Seria perfeito, completamente dentro da rotina chata e enjoativa de um rato de escritório comum como eu, se não fosse pela pequena pedra. Sim, estou falando daquela bendita, maldita pedra, rocha, montanha no meio da droga do meu caminho caro senhor Drummond!

Não acredito! Outro término, outro amor que não dera frutos suficientes para crescerem mudas em volta. Claro que com apenas o velho e antigo ancestral que seria desses novos brotos que jamais existiram e, agora sabia eu, jamais existirão, não conseguiria se sustentar por mais de três meses. Confuso? Eu sei, mas o que posso fazer se minha cabeça não passa de um turbilhão de confusões aleatórias? O quão ingênuo eu fui?! Que lamentável.

Agora é aquele momento de pensar: para de drama! Todo mundo passa por isso, não tem porquê fazer tanto caso. Um exemplo de tempestade em copo d'água!

Eu poderia até pensar de tal forma, já terminei tantas vezes e de tantas formas diferentes, porém nunca fui tão odiado ao ponto de levar um pé na bunda por mensagem! Quando algo assim acontece a primeira coisa que vem na cabeça é : eu fui tão babaca ao ponto da pessoa nem querer ouvir minha voz para dizer um adeus concreto ao cortar o fio vermelho do que achamos um dia ser do destino?

Tão curta e grossa, sequer falou os motivos. Me deixou no escuro criando palpites entre as centenas de possibilidades que me vinham à cabeça. Assim eu fico maluco! Não podia pelo menos me falar o que eu tinha feito de errado?! E digo pra vocês, tentei contatá-la, em busca de respostas, mas nada. Foi assim que percebi que ela havia me bloqueado em todas as suas redes sociais.

Ha! Nem fiquei triste! Lhes digo que já havia previsto esse desfecho semanas atrás, nada surpreendente. Nem achei que ela seria a mulher da minha vida. Haha!

Só senti o filete morno de lágrima descer teimosamente antes de sequer sobrar resquícios deste quando logo meti a mão para enxugá-lo.

Sem pensar muito, pisei no meu lado irresponsável e mandei aquela mensagem naquele grupo de amigos malucos que todo mundo tem. Sendo que "todo mundo" é um pouco irresponsável de se sair dizendo por aí. Não vemos unanimidade nem num país qualquer, quem dirá em todo o mundo!

Não pretendia comentar, mas nunca vi um nome tão "metamorfótico" como esse, uma hora uma coisa, na próxima semana já é outra, e como estavam viciados no meme do "dotinme", deixaram o nome " ratos do dotinme" por agora.

Bom, mas não é esse o ponto, mandei aquele " Bora sair para beber ? " com uma carinha feliz mais falsa que a possibilidade de alguém ter um corpo como o da boneca Barbie e esperei pelas respostas positivas. Bom, foi minha culpa esperar que concordassem com tal absurdo em plena segunda-feira.

Responderam com coisas como "começar a semana virando noite?! Bateu a cabeça Lucas?!" ou então "perdeu o emprego é?", "esqueceu que temos que desviver de vez em quando? Não dá pra continuar com essa vibe adolescente de viver a vida adoidado!" e muitas outras variáveis no intuito de discordar de minha proposta.

Bom, deixaram bem claro que se eu fosse iria sozinho. E quem falou que não vou?! Afinal, um adulto de verdade tem a obrigação de conviver com a solidão, não é mesmo?

Eles vão ver só. Ficar me aturando mandando fotos da minha noite de lobo solitário, vou fazer com que se arrependam de não me acompanhar. He... Que plano patético... às vezes chego a conclusão que não passo de uma criança com uma máscara tematizada num marmanjo de trinta anos. Por pensamentos assim que muitas pessoas começam a cair para o lado " acredito que vivemos numa matrix''. Conspirações e mais conspirações parecem até mais simpáticas e menos absurdas e utópicas quando pensamos: como um homem tão velho pode agir de forma tão infantil.

Acho que já está bom, não é, Lucas? Todo mundo já entendeu o quão influente é sua criança interior na vida.

Sem mais enrolação, guardei o celular e fui a pé para a boate mais próxima, que, por conveniência, só abria às dezenove. Quantas horas eram? dezoito em ponto. Ha! Uma hora não é nada se comparado a perder a cara para meus amigos. Pelo menos pra mim isso seria uma cicatriz profunda no próprio orgulho. Voltar eu com minha palavra, agora? Não me chamaria mais de Lucas.

Agora, apesar de não haver qualquer chance que tal possibilidade se torne realidade, por que não passar parte dessa uma hora pensando em qual nome se encaixaria melhor comigo?

Imagino-me indo ao cartório com uma daquelas carrancas que tenho o hábito de fazer, falando ríspido ao ponto de contaminar a atendente que logo fecha a cara. Qual nome? Talvez... Jennifer, haha! Sei que o meme já passou do tempo mas difícil não rir ao me imaginar com uma bela peruca, lábios pintados de um vermelho ou, talvez, rosa bem forte. Quem sabe também uma sombra nas pálpebras, daquelas bem vibrantes e chamativas. Com a habilidade que tenho pra coisa, com toda certeza ficaria tudo borrado. Talvez no final pudesse disputar algum concurso de monstro do mês. Viraria, com toda certeza, ídolo dos maquiadores artísticos de terror, haha... Só que não. Os caras simplesmente arrasam demais. Aquelas com muito sangue, apesar de saber que é falso, chega a me dar arrepios.

Bom, voltando ao nome. Talvez me juntar às Karens? Quem sabe eu até apareça no "LufaTV"? Tudo bem, suficiente já, não é? Vamos ver quantas horas são... se pá deve faltar apenas alguns poucos min...

Retiro o que eu disse.

― Sério? Ainda falta meia-hora?

― Tanta ansiedade para beber sozinho? Seu dia deve ter sido uma merda, imagino.

O que? E isso é lá da conta de outrem? Assim que virei o rosto, um cara estava simplesmente espichado no chão a apenas alguns metros de mim. Aquele sorriso abobalhado... já não fui com a cara dele.

― E qual o problema? Você também está sozinho, a não ser se considera a própria sombra um amigo.

O que foi? Por que está franzindo as sobrancelhas assim? Apenas digo a verdade.

― Você é um pouco avoado, não é?

Como assim? Ele considera realmente a própria sombra como um amigo? No mundo dos textos, de forma figurada, eu até curto, mas literalmente? Não posso negar que é, no mínimo, estranho.

Percebendo minha confusão, a única coisa que fez foi indicar, com a cabeça, que direção eu deveria olhar para que eu pudesse entendê-lo.

Sim, eu não tinha percebido o grupo logo atrás de si. Meu rosto simplesmente ardeu de vergonha e, como sempre fazia nessa situações, virei a cabeça descabelando, com a mão, meu cabelo no caminho.

― Ficou vermelho!

Vai pro inferno!

― É claro! Não sei se percebeu, mas está um calor desgraçado aqui. É apenas natural que isso aconteça!

Esse desgraçado, não há motivo pra rir aqui!

― Christopher, prazer ― Estendeu a mão esperando por um aperto.

Tudo bem, já cometi gafes demais para ter o direito de recusar esse ato amigável.

― Que nome de velho. ― Comentei sem pudor. Fui um babaca? Talvez, mas tenho minhas próprias preferências. Pra que passar um dia estressante com uma pessoa que você não sente qualquer afinidade? Só queria que ele fosse embora logo, quem sabe dando uma de antipático dê certo? Porém, estranhamente, o tal de Christopher sorriu? Bateu a cabeça por acaso? Esqueceu de tomar os remédios antes de sair para a rua?

― Sugar Daddy Fake para os mais íntimos.

― Sugar Daddy?

― Não acabou de dizer que meu nome é de velho? Você não é o único que pensa assim.

Pff.

― Seus amigos são só um pouco zoeiros.

― Não é? Mas vamos parar de falar daqueles patetas ali ― Apontou o dedão na direção dos colegas, que ainda mantinham distância, voltando-o para mim logo depois ―. Seria muito mais interessante se pelo menos dissesse seu nome, aposto que é tão bonito quanto o dono.

Olhei-o de cima a baixo. Esse cara não tem um pingo de vergonha.

― Lucas.

Isso mesmo. Dessa forma acho que fui seco o suficiente. Posso não ser dos mais atentos mas também não sou como aqueles ukes mais lerdos que caramujo de novels chinesas clichês. Li algumas vezes ao perceber que eram as favoritas da minha, naquele momento, namorada. Apenas juntando os fatos chegamos a conclusão do que esse Christopher queria comigo. Vocês sabem do que estou falando. "Tão bonito quanto o dono", sério? E o maluco ainda ri?!

― Como imaginei. Pode me chamar de Cris, Lucas.

Esses olhos. Não gosto desse olhar! Talvez seja melhor eu simplesmente ignorá-lo a partir de agora. Simplesmente virei a cara fingindo que o movimento na rua me era deverás interessante. Não demorou muito para que a boate finalmente abrisse. Glória!

Espero não trombar com o tal de sugar daddy fake lá dentro. Haha! Tenho que admitir que esse apelido é divertido. Não consigo conter uma risada quando penso na coisa. Em falar nele, cadê? Não o vejo em lugar nenhum.

― Procurando alguém?

Assim eu sinto até calafrios! Qual é a necessidade de assustar as pessoas assim?! Que cara sádico! Aposto que está sorrindo agora com o pequeno sobressalto que dei ao sentir o bafo perto de meu ouvido.

― Fofo.

Fofo?! FOFO?! Neste momento não fui capaz de me controlar. Fitei aquele rosto odioso que pra mim não passava mais crédito que a cara de um sapo coberto por verrugas. Tá tirando com a minha cara, é?

― Fofo o car*lh*! Vê se vai encontrar outro pra meter o amor à primeira vista em cima. Tô velho demais pra essas paixonites no estilo adolescente. Agora, adeus, e espero que consiga ficar com alguém e curtir.

― E se eu disser que quero apenas você?

E se eu disser que quero que você vá é se ferrar?!

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