1 Memórias Dolorosas

A vida de Agnes era uma bagunça na maior parte do tempo, mas era engraçado como que toda vez que ela estava a beira da felicidade ela caminhava até um precipício de emoções e analisava tudo que já havia passado, e todos os casos que deram errado. E daquela vez, ela se lembrou de um caso há dois anos atrás.

***

O frio queimava suas bochechas, nariz e pontas dos dedos. Seus olhos semicerrados encaravam o caminho à frente que permanecia escuro sob a sombra que as árvores do parque produziam.

Era noite, e a cada minuto que passava, mais o frio lhe atacava.

Sentada em um banco abaixo das folhas de um Eucalipto, Agnes esperava pacientemente uma amiga. O tempo que se arrastou era realmente lento.

— Ei!

Uma voz familiar soou pelo caminho de pedra que minutos antes estivera.

Seus olhos castanhos percorreram o caminho e os cabelos claros de sua amiga foram avistados. Era Ellen.

— Fiquei preocupada quando me ligou — disse a garota dos olhos claros.

Os ombros de Agnes chacoalharam quando riu baixo.

— Era apenas uma ligação.

— Eu sei. — A testa da garota enrugou, seus passos se apressaram e logo ela estava ao seu lado. — Mas você nunca me liga.

Agnes esfregara as mãos, tentou aquecê-las quando o vento passou entre ela.

Ellen espirrara e se encolheu para perto de Agnes.

As duas riram.

— Por que você escolheu vir para este lugar? — fechou o casaco e abraçou o braço de sua amiga.

Os ombros de Agnes novamente se moveram, ela tinha um pequeno sorriso nos lábios, parecia até que queria dizer alguma coisa, mas se sua boca nada sairá, apenas um som baixo e cansado. Um suspiro.

— Eu tenho algumas lembranças boas. Só isso.

— Inferno ou inverno? — Ellen brincou, mas nada fazia com que Agnes mudasse a expressão serena que carregava em sua face.

— Não me lembro. — Seus olhos se apertaram, tentava se lembrar daquele dia ensolarado, os cabelos voavam em direção às folhas secas que giravam ao redor da grama quase amarela. O verde se perdia aos poucos. — Era no Outono. — murmurou, ela finalmente havia se lembrado de um pequeno detalhe que não envolvia ela e Lucca.

— Do ano passado? — Tentou mais uma vez saber.

Ela apenas assentiu, ela queria falar e expressar o que sentia, mas de alguma forma, aquilo era impossível.

— Ano passado você ainda estava com o Lucca, não é?

Agnes ergueu a cabeça para o alto, os galhos rígidos de Eucalipto se moviam com o vento, um aroma gostoso passou quase que despercebido, e as poucas folhas que ainda persistiam, lutavam para permanecer grudados. O céu era escuro anunciava o frio que ainda iria piorar.

Os pelos de seus braços, pernas e de qualquer outro lugar, se eriçaram e se renderam ao frio.

— Sim. E era bom.

Ellen apertou seus lábios em uma fina linha, seus olhos tremularam ao piscar, sua mente percorria todas as informações que tivera daquele dia fatídico. Não havia morte, nem nada do tipo, mas de certa forma, um pedaço de Agnes havia ido embora naquele dia. Talvez fosse sua alegria que era sempre espontânea, talvez fosse seu amor e carinho que eram sempre a fonte de alegria de outras pessoas, talvez fosse...

Haviam varias possibilidades, mas Ellen não podia ao certo dizer o que havia ido embora, o que havia sido perdido, mas ela sabia que algo estava diferente de um ano atrás.

— E como tem estado Ícaro? Você e ele...

Os ombros da garota voltaram a chacoalhar, era a terceira vez que aquele sinal era repetido, não era comum. Se pelo menos Kate estivesse ali, talvez ela pudesse dize ter algo sobre a linguagem corporal de Agnes, ou não. Era tudo tão indefinido que doía os nós de seus dedos.

— Ele continua da mesma forma. — sorriu, não era um meio sorriso, e nem uma impressão errada, era um sorriso.

Ellen podia ate se sentir mais aliviada.

— Isso é bom. Certo? Você gosta dele.

Sua cabeça virou para o lado direito, seus olhos se fecharam ao receber toda a força do vento, os cabelos voaram para o rosto de Ellen e os fios menores chicotearam suas bochechas.

— Gostar não é o suficiente. Ciro acha que eu sou uma vadia. — murmurou a última frase, a voz fina, quase se perdia com o som alto que o vento fazia quando batia nas folhas secas ao chão.

Os olhos azuis de Ellen se reviraram em desgosto.

— Eu sempre achei que ele fosse um babaca, e agora tenho certeza. — disse entre dentes. — Não sei como Kate consegue achar ele maravilhoso. Onde? Minha mão na cara dele e dela. — revirou os olhos mais uma vez.

O canto esquerdo dos lábios de Agnes se ergueram rapidamente, uma risada rápida. Era engraçado quando Ellen falava sozinha.

— Mas eu acho que é verdade. E eu não duvido que Kate pense a mesma coisa. — Torceu os lábios em uma carranca.

Ellen suspirou, ela entendeu um pequeno ponto. Podia até não ser importante para ela, mas era para Agnes.

— Pessoas traem, esquecem e te odeiam.

— Você diz isso por causa do que aconteceu no mês passado? — sussurrou, era um assunto delicado.

Agnes não respondeu, e nem responderia. Ficaria quieta até que os sentimentos controversos passassem. Era ódio e amor que lutavam em seu interior. Amava quem a odiava, e odiava quem a amava. Quando que aquilo iria parar de fato?

Ellen suspirou. Ela não poderia saber o que se passava com Agnes, apenas se ela fosse revestida por coragem e contasse, coisa que ela não faria naquele momento.

— Devemos ir? — Ellen se abraçou, tentou conter o frio, mas ele parecia entrar por algum lugar de sua vestimenta, seus dentes tremeram e seus dedos pareciam virar gelo.

— Só mais um pouco.

E quietas olharam para o nada, a escuridão tomava conta do parque florestal, tudo era escuro e parecia sem vida, apenas as duas ali e as folhas secas que continuavam a fazer barulhos por onde quer que o vento as levasse.

As memórias de um dia distante pareceram de muito real.

Lucca olhava para ela, um meio sorriso delicado que até mesmo poderia ser considerado sexy, mas apenas por ela.

— Você está muito bonita. — O tom baixo de sua voz a fez sorrir.

— Você parece um poço de elogio incansável. — Ela brincou.

Seus olhos encaravam os deles e era quase insuportável pensar na possibilidade de desviar seus olhos dos deles. Seu coração palpitava forte.

— Eu acho que te amo. — disse a garota enquanto encarava os belos olhos do rapaz.

Ele negou. Sua cabeça balançou para os lados, enquanto seus olhos miravam em um ponto baixo e seus lábios enrugavam em uma careta descrente.

— Você está errada. — Sua cabeça inclinou para baixo e inconscientemente ele começou a chutar pequenas pedra de terra e punhados soltos da grama ainda verde, mas brevemente amarelada. — Você não me ama. — Ele ergueu o olhar para seus olhos, um encontro demorado entre olhares cheios de palavras e sentimentos que nunca foram ditos. — Você não ama ninguém, Agnes.

Com um peso sendo posto em seu coração, Agnes balançou a cabeça, ainda sorrindo, parecia uma brincadeira sem graça e de mal gosto.

Sua mão tremeu em nervosismo.

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— O que você quer dizer com isso? — Riu baixo, sem muita graça, pois aquilo havia de fato magoado seu coração frágil.

Lucca chacoalhou os braços, os ombros e até mesmo as pernas.

— Esquece. Você não entenderia mesmo que eu explicasse.

Era uma mudança muito desnecessária e sem sentido, mas Lucca era apenas o Lucca de muitos anos atrás, talvez ele sempre fosse assim e somente ela que nunca havia reparado.

Agnes piscou.

As memórias de alguns meses atrás se apagaram, e toda aquela luz que via, todo aquele brilho glamouroso havia se apagado, como se alguém estivesse segurando um extintor de incêndio espumante, e melecado tudo.

Suspirando ela disse.

— Vamos embora Ellen. — E um sorriso triste completou sua frase.

Era um daqueles dias que separavam para apenas se lembrar e sofrer? Possivelmente.

— Vamos.

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